Economia social e co-sustentabilidade

No contexto da economia social, é, atualmente, muito difundido o conceito de “autossustentabilidade” económico-financeira das organizações.

Tal significa um apelo à sustentabilidade de cada entidade, per si, num quadro de maior autonomia financeira, de menor dependência de recursos escassos ou incertos.

Dir-se-á que tal desiderato, ao nível das entidades da economia social, está associado a um outro conceito, o de co-sustentabilidade, isto é, de sustentabilidade pela cooperação.

Sendo a economia social um lugar onde as relações de cooperação se sobrepõem às relações de competição, importa recentrar o lugar da cooperação na governação e na gestão das entidades da economia social, a fim de ultrapassar os enormes desafios que enfrentam.

A resposta a esses desafios passa pela criação de redes de cooperação e de relacionamento entre as entidades, da mesma família, ou de outras famílias da economia social, preservando a sua identidade específica, a sua base local, em articulação com as comunidades mais próximas, a sua ação de proximidade, mas ganhando escala e “músculo” técnico, humano, económico e financeiro.

A organização em rede, seja através de agrupamentos de segundo grau, como é o caso das uniões, federações e confederações, seja através de plataformas de base setorial, regional, nacional ou transnacional, constitui uma forma essencial para a viabilidade das organizações, para o desenvolvimento de todo o setor, para a difusão dos valores da economia social.

As redes e plataformas – desde o nível autárquico até aos níveis nacional e internacional – constituem formas ajustadas à complexidade atual dos problemas sociais e respondem simultaneamente aos desafios da identidade e da sustentabilidade, aumentando a capacidade institucional, sem sacrificar a relação social de base local, a ligação às pessoas e às comunidades.

A importância do trabalho em rede e da ação dos agrupamentos de entidades tem-se refletido em diversas situações muito positivas:

– O diálogo com os poderes públicos e a assinatura de protocolos de cooperação, que constituem um instrumento que enquadra e regula as relações entre o Estado e o setor e que visa fortalecer a sustentabilidade financeira das entidades;

– A negociação de linhas de crédito e de apoio financeiro às entidades ou a projetos;

– A organização de serviços comuns, a formação e capacitação dos dirigentes e trabalhadores;

– A mutualização de recursos e saberes, com aumento da capacidade de aprendizagem e da base de conhecimento;

– A realização de ações de comunicação e imagem que aumentam a visibilidade das organizações e chamam a atenção da opinião pública para problemas específicos.

A economia social não é um “caldeirão” de entidades, pronto a cozê-las numa mistura em que cada família deixe de se reconhecer. Pelo contrário, é um espaço socioeconómico plural, com diversas formas jurídicas e organizacionais, mas irmanado por um conjunto de princípios orientadores que constituem o seu código genético e projetam uma racionalidade própria e comum.

A cooperação é uma condição da sustentabilidade de cada entidade e de toda a economia social, uma cooperação sem reserva mental e sem instrumentalização mútua, que crie sinergias, amplie a ação das partes e projete os valores da economia social.

 

Proposta de Comissariado para a Economia Social em Espanha

O professor José Luís Monzón, diretor de CIRIEC Espanha, propôs, à ministra do Trabalho, Migrações e Segurança Social, do novo governo de Espanha, a criação de um Comissariado para a Cidadania, Cooperativismo e Economia Social.

Em defesa da sua proposta, o professor Monzón afirmou que o cooperativismo e a economia social constituem poderosos instrumentos de participação cidadã e de democratização económica e social e são eixos determinantes para consolidar um sistema de economia plural que permita mais igualdade e cidadania, cabendo aos poderes públicos promover as condições para o seu desenvolvimento.

 

A economia social e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

 O Grupo de Trabalho Interagências das Nações Unidas para a Economia Social e Solidária (UNTFSSE) lançou uma chamada de artigos para avaliar a contribuição da ESS para o desenvolvimento inclusivo e sustentável, com ênfase particular nos contextos locais. Organizado pelo UNRISD, este apelo visa identificar e mobilizar estudos e investigações de diferentes regiões e territórios que examinem criticamente o papel da ESS como meio de implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

A submissão de resumos termina em 2 de agosto de 2018. Mais informações em www.unrisd.org/sse-sdgs-cfp.

José Alberto Pitacas

Diretor do Gabinete de Estudos Sociais e Mutualistas da Associação Mutualista Montepio

 

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